gold and black round coin
Foto: Kanchanara / Unsplash
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Tokenização de recebíveis entra na fase de produto real

O conceito de transformar duplicata em token blockchain saiu dos pilotos e ganhou tração. Falta resolver liquidez e padronização.

Pedro Andrade

Editor-chefe

Por muito tempo, falar em tokenização de ativos no Brasil parecia exercício acadêmico. Apresentações em painel, white paper publicado, piloto que rodava num data center sem cliente real. Mudou. Hoje há plataformas funcionando, operações fechadas e investidores entrando com cheque grande.

Por que recebíveis primeiro

Entre os ativos do mundo real (RWA, na sigla em inglês), recebíveis comerciais são o mais natural pra tokenização. São padronizáveis (duplicata é duplicata), têm prazo curto (60 a 180 dias na maioria) e o mercado de antecipação já existia antes da blockchain entrar na conversa.

A diferença que o token traz é fracionamento e rastreabilidade. Uma duplicata de R$ 100 mil pode ser dividida em mil tokens de R$ 100, cada um com histórico imutável de origem e cessão. Isso reduz fricção pra investidor de varejo participar e melhora auditoria pra investidor institucional.

Quem está fazendo

A frente regulatória avançou. A CVM publicou normas sobre ofertas tokenizadas e o Bacen acompanha as discussões sobre infraestrutura. Já há plataformas autorizadas, com operações registradas, KYC robusto e liquidação atrelada a meios de pagamento tradicionais.

Os participantes vão de fintechs especializadas a grandes gestoras testando o produto. O perfil de investidor inclui fundo de crédito, family office e, em algumas plataformas, pessoa física qualificada.

Onde o modelo ainda emperra

Apesar do avanço, três obstáculos pesam.

Liquidez secundária. Comprar token de recebível é fácil. Vender antes do vencimento, nem sempre. Sem mercado secundário consolidado, o investidor ainda precisa segurar até o pagamento da duplicata.

Padronização técnica. Cada plataforma usa seu próprio padrão de smart contract. Tokens emitidos numa não são facilmente trocados em outra. Falta o equivalente a um padrão comum tipo ERC-20, adaptado pra a realidade brasileira.

Custo de origem. Pra emitir token, é preciso integrar com sistema de cobrança, validar duplicata, fazer KYC do sacado. Em volume baixo, o custo unitário é alto demais.

O próximo passo

A maturação do produto deve vir por consolidação. Plataformas que conseguirem escala vão diluir custo de origem. Padronização técnica deve aparecer via grupo de trabalho do setor ou via regulação. Liquidez secundária depende de massa crítica.

Pra o investidor que olha o setor com seriedade, recebíveis tokenizados oferecem retorno atrativo comparado a renda fixa tradicional. Pra emissor, oferece custo de capital potencialmente menor. A equação fecha quando o ecossistema amadurece.

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